JOHN VON NEUMANN E OSKAR MORGENSTERN, GÊNIOS QUE CRIARAM JUNTOS A TEORIA DOS JOGOS E COMPORTAMENTO ECONÔMICO, UMA DAS MAIS BRILHANTES OBRAS PUBLICADAS NO SÉCULO XX

À esquerda Oskar Morgenstern, à direita John Von Neumann. 


O dr. Fantástico tinha um braço sintético metido numa luva preta; seu corpo inválido estava confinado a uma cadeira de rodas. Óculos fumê escondiam seus traços fortes deformados e sua voz aguda e estrangulada tinha um ameaçador sotaque centro-europeu. Esse era o gênio maligno da Sala da Guerra, que aconselhava o presidente dos EUA sobre estratégia quando o mundo encarava o desastre nuclear no filme de Stanley Kubrick Dr. Fantástico. Um único bombardeiro americano furara o sistema de defesa soviético e já não era possível chamá-lo de volta. Com horror, o embaixador soviético revela ao presidente e a seu conselheiro as conseqüências prováveis: se o bombardeiro conseguir alcançar seu alvo, poderá disparar a arma mais avançada da União Soviética, a Máquina do Dia do Juízo. 

Esta lançaria uma grande nuvem de material radioativo que envolveria a Terra inteira, destruindo toda a vida humana e animal por cem anos. O presidente está perplexo. O dr. Fantástico, exasperado, exclama para o embaixador soviético: “Não adianta nada ter um Máquina do Dia do Juízo se vocês mantêm isso em segredo. Por que não contaram ao mundo?” Esta é a lógica da teoria dos jogos — a primeira referência explícita a esse novo método de pensamento estratégico num filme popular. Toda a noção de dissuasão nuclear foi baseada na teoria dos jogos. O dr. Fantástico, interpretado com certo exagero frenético por Peter Sellers, dá sinais de crescente insanidade à medida que o filme se aproxima de seu clímax nuclear. Concebe rapidamente um plano brilhante para a sobrevivência humana, seu braço mecânico começa a escapar do seu controle e tenta estrangulá-lo, e ele faz referências inquietantes a um “kom-putah”. 

O gênio perverso degenera numa paródia do cientista louco. A maioria das pessoas viu o dr. Fantástico como uma criação absurda, exagerada para fins satíricos. Os fatos sugerem outra coisa. Em meados da década de 1950 uma figura misteriosa com sotaque húngaro, seu corpo incapaz limitado a uma cadeira de rodas, costumava ser transportado de limusine de seu leito no Walter Reed Hospital em Washington para a Casa Branca. Ali o presidente Eisenhower, que anteriormente, durante a Segunda Guerra Mundial, comandara a totalidade das forças aliadas na Europa, ouvia atentamente as sugestões de seu conselheiro estratégico secreto, um homem que sequer prestara serviço militar. Terminado o encontro, a figura presa à cadeira de rodas era rapidamente levada de volta a seu quarto de hospital. Dois guardas armados ficavam postados dia e noite à sua porta e ele só era atendido por enfermeiros navais com direito de acesso a informações ultra-secretas. 

O paciente estava ficando cada vez mais perturbado mentalmente e muitas vezes acordava gritando e falando coisas à noite. Seus guardiões militares estavam ali para assegurar que nenhum segredo que deixasse escapar chegasse a uma potência estrangeira. Esse homem era John von Neumann, um húngaro brilhante que fora responsável por verdadeiras revoluções em vários campos intelectuais, da matemática pura à economia prática. 

Na verdade, em 1944 ele estava convencido de ter encontrado um método que “resolvia” a economia. Dali em diante a escolha econômica “sensata” seria uma simples questão de cálculo matemático“.

Todo o processo de tomada de decisão econômica poderia ser legado a computadores (que ele também ajudou a inventar), com o que economistas do tipo humano se tornariam redundantes. Esse mesmo homem — talvez a mais exímia mente matemática do século XX — propôs também usos de extensão ainda maior para seu novo método radical, que chamou de teoria dos jogos. Ali estava uma teoria que mostrava não só como eliminar para sempre a incerteza econômica, mas também como governar o mundo pela força nuclear. John von Neumann, filho de um rico banqueiro de Budapeste e nascido em 1903, fez parte da brilhante geração húngara que produziria figuras que iriam de Georg Solti a Zsa Zsa Gabor. Von Neumann foi logo reconhecido como criança prodígio. 

Aos seis anos era capaz de ler uma vez uma página do catálogo telefônico de Budapeste e repeti-la imediatamente de memória. Aos oito anos, conseguia dividir de cabeça dois números de oito dígitos. (Experimente dividir 97.572.915 por 18.835.769 no papel.) Antes dos 30 anos, Von Neumann escreveu o que veio a ser considerado o livro-texto definitivo sobre mecânica quântica. Mas essa obra continha seu primeiro erro crucial: uma prova errada. A essa altura, porém, sua reputação era tão grande que os poucos que detectaram o erro ficaram certos de ter deixado escapar alguma coisa. A força da lógica de von Neumann era incontestável, mas fora baseada em uma suposição injustificada. Como veremos, esta se tornaria uma falha característica. (A “prova” de Von Neumann iria impedir o progresso de um aspecto particular da mecânica quântica por mais de meio de século.) 

Em 1928 Von Neumann descobriu uma teoria que transformaria a longa história da probabilidade matemática e viria a ser conhecida como teoria dos jogos. Sua intenção era reduzir qualquer disputa entre duas pessoas a um jogo matemático preciso. As alternativas de um jogador em uma partida de pôquer poderiam ser avaliadas segundo a probabilidade matemática de suas diferentes conseqüências. A teoria dos jogos, contudo, não tratava apenas de jogos; podia ser aplicada também à realidade. Nas palavras de Von Neumann, “a vida real consiste no blefe, em pequenas táticas de embuste, em uma pessoa se perguntar o que a outra vai pensar que ela pretende fazer. E é disso que os jogos tratam em minha teoria.” A teoria dos jogos dizia respeito ao conflito entre dois parceiros extremamente inteligentes e blefadores, reunidos sob certas regras. 

Um jogador jamais poderia saber ao certo se o outro estava trapaceando. A persistente obsessão de Von Neumann pela teoria dos jogos estava muito provavelmente ligada a seu ímpeto sexual compulsivo. Segundo seu biógrafo, Steve J. Heims, “alguns de seus colegas achavam desconcertante que, ao entrar num escritório em que havia uma bonita secretária trabalhando, von Neumann costumasse se abaixar, mais ou menos como se tentasse examinar o vestido dela.” Von Neumann continuou mulherengo enquanto seus dois casamentos duraram. Suas esposas foram ambas mulheres fortes e inteligentes, que se provaram perfeitamente aptas a adivinhar o que até um gênio podia fazer em suas horas de folga. Numa carta à sua segunda mulher, depois de uma certa infração ter sido descoberta, Von Neumann escreveu prudentemente: “Espero que tenha perdoado minha modesta aventura no logro.” 

À luz de um comportamento como esse, não surpreende constatar que o inventor da teoria dos jogos tinha uma visão um tanto cautelosa de jogos e conflitos entre duas pessoas. Só havia uma única estratégia racional: “A derrota é inevitável se o objetivo é ganhar em vez de evitar perder.” A finalidade do exercício era limitar a perda. Em cada estágio, você deveria calcular cada jogada que lhe seria possível fazer e em seguida calcular a máxima perda possível que poderia sofrer se a concretizasse. Depois deveria escolher a jogada que tivesse a mínima perda máxima possível. Este se tornou conhecido como o teorema minimax — e embora tenha resultado num divórcio, parece ter minimizado a possibilidade de uma segunda perda máxima para seu criador. 

Von Neumann emigrou para os EUA na década de 1930. Ainda com menos de 30 anos, foi nomeado, juntamente com Einstein, para o recém-fundado Instituto de Estudo Avançado em Princeton. O instituto, que era dedicado exclusivamente à pesquisa teórica, tornou-se rapidamente a Meca para os melhores cérebros científicos da Europa e dos Estados Unidos. Durante sua permanência ali, Von Neumann desempenharia mais tarde um papel capital no desenvolvimento dos primeiros computadores. Embora todo trabalho prático estivesse vedado na instituição, ele conseguiu montar na sala das caldeiras um grande protótipo de computador, uma versão inicial do Analisador, Numerador, Integrador e Computador Matemático (conhecido pela sua sigla em inglês MANIAC). 

Von Neumann deu também contribuições decisivas para o desenvolvimento das primeiras bombas nucleares. Em conseqüência, tornou-se um membro destacado da Comissão de Energia Atômica dos EUA, aconselhando o presidente sobre o uso da bomba de hidrogênio. A Guerra Fria contra a União Soviética estava entrando agora em seu período mais duro. Von Neumann viu esse conflito mundial como uma oportunidade ideal para pôr a teoria dos jogos em prática. Ali estava o jogo entre duas pessoas para superar todos os jogos entre duas pessoas. A aplicação da teoria dos jogos a essa situação levou Von Neumann a uma só conclusão, cuja lógica era incontestável. A única linha de ação possível era atacar primeiro. 

Como explicou gravemente ao presidente, a teoria dos jogos ditava que ele lançasse uma bomba H sobre os russos imediatamente. A única maneira de sustentar uma posição vitoriosa no jogo era destruir os russos antes que eles pudessem desenvolver sua própria bomba H. Qualquer outra linha de ação seria completamente contrária à lógica da teoria dos jogos. (Nunca antes, mesmo em casa, ele deparara com uma situação de jogo tão oportuna.) Mais uma vez, podemos ver que a lógica de Von Neumann é irrefutável. No entanto, seus pressupostos parecem ter sido submetidos a uma análise um tanto menos rígida. Apesar da forte insistência de seu conselheiro (“antes que seja tarrde demais”), o presidente Eisenhower continuou hesitando. 

Até seu secretário de Estado, John Foster Dulles, deixou-se convencer pela lógica de Von Neumann. Mas Einsenhower ainda titubeava. Via-se incapaz de refutar a convincente argumentação proposta por aqueles dois bruxos da estratégia global. Apesar disso, o homem que vencera a Segunda Guerra Mundial na Europa não podia deixar de sentir que havia alguma coisa errada naquilo. Então os russos anunciaram que agora também tinham a bomba H. Era tarde demais. Apesar da ilogicidade de sua posição, a sanidade prevalecera. Mas a teoria dos jogos podia ser aplicada a situações que eram mais do que simplesmente catastróficas (estratégia nuclear, divórcio) ou triviais (pôquer, casamento). Por sua própria natureza, dizia respeito a qualquer atividade humana que envolvesse conflito. 

Isso significava que podia ser aplicada à mais complexa e vital de todas as atividades humanas, a saber, a economia. Já em 1939, Von Neumann fora procurado por um outro membro austro-húngaro brilhante da geração Zsa Zsa Gabor que tinha em vista exatamente isso. Oskar Morgenstern estudara economia e filosofia em Viena. Isso o levara a concluir: “Fui um idiota [por ter estudado] essa tola filosofia.” Sua opinião sobre a economia, ou, mais precisamente, sobre os economistas, era pouco melhor. Rejeitava a obra do eminente economista austríaco Friedrich von Hayek como “tolice jactanciosa”. Apesar disso, pretendia suceder a Hayek como diretor do célebre Instituto de Viena para a Pesquisa do Ciclo Econômico. 

A capacidade de Morgenstern de se opor a tudo e a todos chegou ao auge com a tomada da Áustria pelos nazistas em 1938. Embora anti-semita, Morgenstern foi considerado “politicamente intolerável” pelos nazistas. Aceitou um cargo na faculdade de economia de Princeton e permaneceu no exílio o resto de sua vida. Seus colegas americanos provaram-se a seus olhos uma igual decepção: “Os economistas simplesmente não sabem o que significa ciência. Estou completamente enojado de todas essas besteiras.” 

Não contente com a opinião desfavorável que tinha dos outros, Morgenstern combinava isso com delírios de sua própria grandeza. Afirmava ser um legítimo descendente do cáiser alemão Frederico III, e mantinha um retrato do “avô” em exibição em um lugar de destaque em seu apartamento (mesmo depois que os Estados Unidos entraram em guerra com a Alemanha). Morgenstern logo se tornou uma figura facilmente reconhecível em Princeton. Envergando um de seus ternos de três peças feitos sob medida, desenvolveu o gosto de andar a cavalo pelas ruas. Nas palavras do historiador econômico americano Robert J. Leonard, Morgenstern era um homem de “ambição intelectual enorme e capacidade teórica limitada”. Querendo se misturar apenas aos que considerava seus pares intelectuais, rapidamente gravitou para o Instituto de Estudo Avançado. 

Ali, pessoas do porte de Einstein, Gödel e dos ganhadores do prêmio Nobel residentes logo aprenderam a evitá-lo. Mas não Von Neumann, que estabeleceu uma curiosa relação com Morgenstern. Parece que este estava disposto a fazer vista grossa à condição de judeu de Von Neumann — possivelmente graças a seu “Von” de nobreza, assim como à sua preeminência intelectual. A visão que Morgenstern tinha da economia era partilhada por Von Neumann, que declarou: “A economia está simplesmente a um milhão de milhas de distância do estado em que se encontra uma ciência avançada, como a física.” Morgenstern percebeu sua chance. Ali estava exatamente o homem para compensar aquelas pequeninas deficiências teóricas que tantas vezes pareciam estorvar a plena florescência de seu intelecto excepcional. 

Se pelo menos Von Neumann pudesse colaborar em um projeto seu. Morgenstern começou a examinar o trabalho anterior de Von Neumann e deparou com seu artigo sobre teoria dos jogos. Sim, era o que procurava! A inspiração, afinal, que ambos estiveram buscando, Morgenstern assegurou a Von Neumann. Com seu talento econômico e a argúcia matemática de Von Neumann, os dois juntos resgatariam a economia de seu estado neolítico. Iriam transformá-la numa ciência exata, cuja lógica incontestável não deixaria espaço possível para o erro. Isso seria feito mediante a aplicação da teoria dos jogos. 

Em 1941 Oskar Morgenstern e seu novo companheiro “Johnny” von Neumann começaram a colaborar num artigo que demonstrava como a teoria dos jogos podia ser aplicada à economia. Esse artigo logo se desdobrou em dois e depois floresceu num livreto de 100 páginas. Apesar da escassez do período de guerra, a Princeton University Press foi convencida a publicá-lo — assim que os autores completassem a versão final. Nessa altura, porém, Morgenstern e Von Neumann tinham ficado obcecados por seu tema, e logo o livreto começou a se expandir num livro. Nessa época Von Neumann ocupava-se com algumas tarefas em Los Alamos, trabalhando no Projeto Manhattan para a construção da primeira bomba atômica. Estava sendo requisitado também como consultor das forças armadas e do governo em Washington. 

Mas, em meio às distrações de aconselhar o modo de ganhar a guerra e tramar como cindir o átomo, Von Neumann voltava para Princeton para levar adiante sua colaboração. Ele e Morgenstern trabalhavam dia e noite. Costumava levantar-se quando sua mulher ainda dormia e encontrar-se com Morgenstern no Nassau Club. Ali, reviam seu precioso trabalho durante o café da manhã e depois delineavam novas possibilidades para a expansão da teoria dos jogos no campo da atividade econômica. A discussão continuava no apartamento de Morgenstern, do outro lado da Nassau Street, em cima do Princeton Bank. 

Sob o olhar vigilante do cáiser, Morgenstern tomava notas concentradamente enquanto seu companheiro Von Neumann mantinha os olhos a meia distância, recitando uma sucessão de fórmulas matemáticas abstrusas. (A criança que era capaz de dividir números de oito dígitos de cabeça agora conseguia conceber fórmulas que reduziam toda atividade econômica a um jogo.) À tarde os dois se recolhiam à casa de Von Neumann, no n º 26 da Westcott Road, para que ele pudesse passar algum tempo com sua mulher Klari durante suas breves licenças de Los Alamos e Washington. Klari servia café enquanto os dois colaboradores continuavam sua conversa. A palestra continuava durante mais café, durante drinques, durante o jantar e ainda mais café. Depois de ser ignorada por oito horas a fio, Klari acabava pondo os dois homens porta afora, quando passavam a caminhar até a madrugada pelas ruas desertas da Princeton do tempo de guerra. 

Finalmente Morgenstern percebeu: “Klari estava sempre bastante perturbada com nossa perpétua colaboração e conversas incessantes.” Assim, nos fins de semana eles a poupavam dessa desconcertante experiência. Como alternativa, “íamos de vez em quando de carro até o litoral e ficávamos caminhando para cima e para baixo pelo píer em Sea Girt, em particular, discutindo problemas”. No final, os três viajaram mais de 1.600km até o litoral do Texas no Golfo do México: “Eu estava passando férias em Biloxi com Johnny e sua mulher Klari. Novamente, passávamos dia após dia discutindo teoria… por acaso, sempre falávamos em alemão.” Podemos somente imaginar a impressão que tudo isso provocou na gente do lugar. Na época todo o litoral leste estava repleto de boatos de que os alemães estavam registrando o movimento de comboios atlânticos para a Europa e de casos de espiões inimigos desembarcados na costa por submarinos. 

Em abril de 1943 o trabalho dos dois estava finalmente pronto. Como Morgenstern explicou, “o pessoal da imprensa ficou absolutamente estupefato ao ver um manuscrito de cercas de 1.200 páginas datilografadas cheios de gráficos e fartas notações matemáticas.” Sem ironia aparente, os autores decidiram chamar essa obra-prima Teoria geral do comportamento racional. Mas acabaram por achar que isso “não era suficientemente descritivo de nosso trabalho” e ela foi reintitulada Teoria dos jogos e comportamento econômico [Theory of Games and Economic Behavior]. A obra é prefaciada por uma garantia de que “nenhum conhecimento específico de nenhum corpo particular de matemática avançada é requerido. Contudo…” Uma olhada de relance pelas cem páginas seguintes de fórmulas densamente apinhadas contendo “fartas notações matemáticas” seria suficiente para indicar se a matemática do leitor se alçava àquela humilde categoria. 

A obra propriamente dita abre com uma modesta comparação entre a aplicação da teoria dos jogos à economia e o efeito sobre a física da descoberta da gravidade por Newton. Passa então a analisar temas tão diversos quanto a economia de “Robinson Crusoé”, “As aventuras de Sherlock Holmes” e o “Pôquer e o blefe”, encerrando com “Interpretação econômica de resultados” para mercados compostos de duas pessoas, e estendendo-se mesmo até mercados “com mais de três pessoas”. No fim há um índice que inclui itens como “fenômenos psicológicos, tratamento matemático”; “ganhar” tem entradas suficientes para incluir duas subseções: “certamente” e “completamente”. Há apenas duas entradas sob “perda”. 

A publicação de Teoria dos jogos e comportamento econômico em 1944 foi saudada com aplausos extasiados. O American Mathematical Society Bulletin qualificou o livro de “uma das mais importantes contribuições científicas da primeira metade do século XX” — pondo-o assim ao lado da relatividade, da teoria quântica e da economia keynesiana que combatera a recessão mundial (embora Morgenstern tivesse declarado: “Keynes é um charlatão científico, e seus seguidores nem isso”). Críticos mais cautelosos, como o economista Leonid Hurwicz, mantiveram-se enormemente otimistas: “Mais dez livros como este e o futuro da economia está assegurado.” 

A onda avassaladora de opiniões favoráveis a Teoria dos jogos e comportamento econômico atingiu seu clímax em março de 1946, quando o livro foi notícia de primeira página em The New York Times — com tanto destaque quanto uma declaração feita por Churchill no mesmo mês de que uma “Cortina de Ferro” descera através da Europa. Muitos estavam convencidos de que a teoria dos jogos se tornaria o fundamento de toda teoria econômica. A economia seria reduzida de uma vez por todas a mero cálculo. Não haveria lugar para discussão humana: uma decisão seria ou certa ou errada. 

O jogo do dr. Fantástico teria conseguido acabar com o mundo tal como o conhecemos. Poderia algum dia fazer algo parecido com a economia? A resposta reside em nossa definição de economia. Inicialmente a matéria consistiu de pouco mais que uma série de descobertas relativas à atividade comercial — o que era ela exatamente, como funcionava, como podia ser melhorada. Desses primórdios o estudo da economia evoluiu gradualmente. Ao longo dos séculos, isso gerou uma narrativa épica, com grande elenco de personalidades variadas e pitorescas. 

Mas, em vez de uma história tradicional, com um herói central cujas ações ilustram e desenvolvem seu caráter, temos uma ideia central. Esta evolve nas mãos de uma sucessão de indivíduos, entre os quais alguns dos mais notáveis pensadores de seu tempo, bem como uma diversificada coleção de gênios rebeldes, moralistas, excêntricos e charlatões. Alguns tentaram salvar o mundo, e teriam podido destruí-lo. Alguns se viram simplesmente como mecânicos, fazendo o que podiam para manter o motor em funcionamento. Outros conceberam utopias ou visões apocalípticas. 

Vários foram movidos pela compaixão a tentar sanar a terrível realidade que se desdobrava a sua frente. A ideia econômica, em constante evolução, nem sempre resultou em progresso — longe disso. Levou no entanto a uma autocompreensão social mais aprofundada e a um crescente entendimento de como a sociedade funciona. De uma série de achados inicial, a economia espalhou-se hoje por todas as facetas de nossa vida. Tornou-nos cada vez mais conscientes de quem somos e do que é que estamos fazendo. O que se segue é uma narrativa de como isso aconteceu, junto com as vidas e as idéias daqueles que o fizeram acontecer. 


Fonte: Portal Conservador, Livro de Paul Strathern – Uma breve história da Economia, páginas 5, 6, 7, 8, 9 e 10

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